Anti-Cristo

No último ano, movida pela indignação relativa a danos morais causados à minha pessoa por parte dos que se auto-intitulam homens de bem e que supostamente estariam em condição de pretensa superioridade moral, durante uma sequência de longos e cansativos meses transformei minha revolta em ato político. Participei ativamente das mobilizações do repúdio à nomeação de deputado pastor à comissão de direitos humanos e minorias na câmara dos deputados e posteriormente me uni ao levante nacional de junho em reprovação às arbitrariedades do governo na destinação de recursos públicos à copa do mundo e às remoções forçadas de famílias em prol do higienismo antropológico nas cidades-sede da copa.

Não me arrependo de nada. Julgo mesmo que o que conseguimos realizar durante as mobilizações do “fora feliciano” em 2013 foi um ato heróico, consistindo no poder da revolta popular em manter uma pauta nacional a despeito dos interesses da grande mídia. Por outro lado, colhemos pouco ou nada deste esforço desgastante. Muitas pessoas, como eu, priorizaram essa luta em detrimento da manutenção de atividades que trariam algum benefício próprio. Nos prejudicamos em nossos processos de trabalho pois destinamos energia, tempo, sonhos e por que não dizer trabalho, à manutenção dos protestos, que nos custaram semanalmente, durante meses, horas em reuniões longas semanais, presença em protestos e vigílias por mais de uma vez a cada semana.

Outros episódios de retrocesso na agenda política nos causaram desânimo, como o caso da retirada do eixo gênero do plano nacional de educação. A omissão do Estado em tramitar a representações éticas que foram apresentadas contra parlamentares que abusaram da liberdade de expressão veiculando o ódio nos estarreceu. Hoje, sabemos que o Estado nos desampara. Sabemos também que nossos discursos, por mais fundamentados que sejam em filosofia política, em teorias feministas e em estudos históricos e sociológicos, são distorcidos fanaticamente em prol do discurso de ódio puro e simples. Eu, como muitas pessoas que lutam por justiça social no Brasil, somos objeto de ódio e de repulsa.

Reconhecendo que fui tornada à minha revelia em uma representante do que se propõe ser a degradação social e a morte da família, o que tenho para dizer é que recentemente me chegou uma ameaça de tortura e de morte por via indireta. Alguém alertou pessoas muito próximas a mim que estaria a par da intenção de “justiceiros” de fazer justiça no meu caso. Uma pessoa como eu representaria risco social e um abominável projeto de destruição da civilização. Acredito que pessoas assim não conseguem minimamente criticar os processos históricos de opressão no curso civilizatório. Acreditam que a civilização iria muito bem caso ativistas como eu não se impusessem contra essa tal civilização, ponto em que discordamos veementemente posto que esse modelo civilizatório patriarcal e capitalista é justamente contra o que lutamos.

Não posso afirmar com certeza qual foi a educação que estas pessoas que defendem esta civilização afeita à violência tiveram. Sei apenas que o suposto levante pela retomada da marcha pro-família com Deus pela liberdade foi um completo fiasco, denunciando que apenas alguns poucos fanáticos se dedicariam a defender o retorno da ditadura militar e seus mecanismos de cerceamento da liberdade dos que se debruçam à oposição contra os abusos de poder. Tivemos notícias de muitos depoimentos por meio da Comissão Nacional da Verdade. Em um deles, o horror expresso por torturador que assumiu até mesmo esquartejamentos, um horror dias depois confirmado pela sua própria execução – de autoridade o mesmo foi rebaixado a um arquivo a ser queimado. Também tivemos notícia do horror expresso por perícias que alegam que gente foi morta com requintes de crueldade, como a chamada coroa de cristo, um método de tortura que leva ao óbito pelo esmagamento do crânio. Tivemos muitas notícias desse horror acontecido na história recente do nosso país.

Receber uma ameaça de tortura e morte neste contexto desperta no mínimo fantasias do horror. Ninguém merece ser tomada em sua vida cotidiana pela notícia de que intencionariam fazer algo assim consigo. É algo que faz pensar a respeito da fragilidade da vida diante do ódio legitimado pela então moral e bons costumes, a mesma moral e os mesmos costumes que fundamentaram atos de tortura durante o regime de ditadura militar, essa Era da moral e bons costumes supostamente cristãos. Faz pensar também a respeito da ameaça que o livre pensamento apresentaria à sociedade. Estão corretos quando alegam que eu, assim como muitas pessoas, visamos destruir esta civilização. Estamos de fato empenhadas em fazer ruir as estruturas de legitimação da violência, da desigualdade e da opressão que decorrem na violação de vidas que se apontam arbitrariamente como menos humanas, inumanas ou mesmo demoníacas.

Eu sou uma dessas pessoas. Eu continuarei resistindo contra a banalização da violência, contra a hierarquização do valor entre diferentes vidas humanas. Continuarei me posicionando em relação ao projeto de manutenção do horror civilizatório. Permanecerei argumentando que precisamos revisar os fundamentos da sociabilidade, pois não há como negar que mulheres, pessoas negras, pessoas pobres, pessoas homossexuais, pessoas trans e tantas outras pessoas que representam minorias morais ou mesmo maiorias historicamente abusadas padecem cotidianamente de opressão, marginalização, violência, assédio, em prol de uma suposta civilização resguardada na palavra de Deus como propriedade daqueles mercadores da fé que abusam da palavra por interesses próprios.

Reservando-me o direito ao livre pensamento e à expressão, afirmo que a palavra de Deus, que nos foi dada a conhecer por meio do escrito das pessoas humanas, ao menos no judaísmo e no cristianismo, é voltada à cessação da violência e não ao seu reforço. Me aterei agora às palavras de Deus que teriam sido diretamente inscritas em pedras, segundo o antigo testamento. Os dez mandamentos, segundo René Girard, estariam destinados prioritariamente à regulação da violência entre humanos. De acordo com esta interpretação, não caberia legitimação da violência de acordo com preceitos divinos. A legitimação do ódio e da violência foi o que levou à paixão de cristo e à sua crucificação, de acordo com o novo testamento na forma dos evangelhos que nos foram legados como narrativas que manteriam viva a memória do filho de Deus e seus feitos. Jesus teria sido exemplo da arbitrariedade da violência.

Se é de moralidade cristã que estamos necessitando, segundo alegam alguns, eu diria que precisam escutar a palavra. Jesus Cristo já veio e a palavra já foi enunciada, basta que cumpram e renunciem aos seus ímpetos odiosos e de linxamentos morais públicos. De minha parte, acredito que a palavra pela paz civil e respeito às diferenças pode ser também afirmada em contextos morais não-cristãos. Aos que se articulam em legião difamatória e de incitação ao ódio, ainda que se auto-intitulem homens de bem e em situação de superioridade moral, o que tenho a dizer é que agem como anti-cristos. vá de retro, legião. A legião está aí, agenciando pânico social, incitando à violência e usando em vão a palavra de Deus.

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