Histeria contra o kit anti-homofobia é prima da política do medo

por difama

Por Alceu Luís Castilho

originalmente publicado em: http://alceucastilho.blogspot.com.br/2012/10/histeria-contra-o-kit-homofobia-e-prima.html

Estamos em um país onde se torturam e matam homossexuais. Mas o que deveria ser oportunidade de engrandecimento do debate (a política) acaba sendo um exercício de perpetuação de preconceitos. Políticos com medo perdem a ótima chance de promover a tolerância. Com isso, acabam dando aval – mais ou menos cúmplice – à histeria homofóbica.

A eleição para a prefeitura de São Paulo em 2012 está sendo cenário dessa política do medo. Medo dos gays, medo dos eleitores que têm medo de gays. O candidato tucano José Serra faz de conta que não quer o apoio do pastor Silas Malafaia, um conhecido opositor de direitos elementares, um refratário a políticas (de educação, de saúde) minimamente inclusivas. Nada revolucionárias. Constitucionais.

Malafaia abre fogo contra o candidato Fernando Haddad, ex-ministro da Educação. Pois este teria promovido o que esse senhor chama de “kit-gay” – na verdade um kit contra a violência, um produto educativo contra a barbárie, um instrumento para que não surjam mais tantos intolerantes como Silas Malafaia. Seria ponto para o MEC o kit anti-homofobia. Mas o medo venceu a esperança, diante da histeria raivosa – apresentada pela imprensa como “reação religiosa”.

A Folha de S. Paulo mostrou nesta segunda-feira que o próprio governo tucano já distribuiu kits semelhantes, para professores, no estado de São Paulo. Ótimo. Ponto para a Secretaria de Estado da Educação. Mas a informação é transmitida com a “justificativa” de que era só para professores. Como se coubesse só aos professores combater a violência, a discriminação. E não a cada brasileiro.

A candidatura de Fernando Haddad pode ser considerada menos cúmplice em relação a essa lógica regressiva, a esse comportamento que impede avanços estruturais no combate à violência de gênero. Mas não sobe o tom como poderia. Pois, antes de defender os homossexuais (e, de um modo geral, os direitos humanos), tem medo de perder votos. Por causa do vale-tudo promovido por aqueles que atacam “a turma dos direitos humanos”.

A lógica é a da conquista do voto. Mesmo que seja o voto da barbárie. Enquanto isso, a decorrência é que gays, lésbicas e travestis continuem sendo espancados e assassinados. (E este medo específico é apenas um entre vários medos que compõem o cenário político-paranóico, onde a “opinião pública”, de modo fascista, impede políticas públicas que beneficiem ou protejam minorias.)

Quem se importa?

Os mais pacientes dirão que é necessário engolir esse sapo durante a campanha para evitar que políticos mais raivosos (e homofóbicos) sejam eleitos. Eu discordo. Vejo a necessidade de se combater a homofobia como prioritária, estrutural, sem margem a negociação, a interesses passageiros. O kit anti-barbárie deveria ser uma cartilha, um abecedário para a convivência em sociedade. E não um tema em disputa.

A cada segundo de espera mais um brasileiro terá sido espancado. O medo dos políticos é primo íntimo da homofobia. Corre o risco de patrocinar as mesmas mãos que torturam e matam. Caberia a todos (todos os políticos, todos os cidadãos que condenem a violência) exclamar: “Sim, nós somos da turma dos direitos humanos. E com muito orgulho. Com licença”.

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