Desconstruindo as ideias do livro de cabeceira dos fundamentalistas religiosos

por difama

Por Leandro Colling

Depois de uns dias de férias, retomaremos o nosso blog. Meu texto de hoje é longo e irá tratar sobre o livro A estratégia – o plano dos homossexuais para transformar a sociedade, recentemente publicado no Brasil pela editora Central Gospel Ltda, de autoria do reverendo norte-americano Louis P. Sheldon.

Tive que ler o livro a pedido do Conselho Nacional LGBT, do qual faço parte. Para quem não sabe, o Conselho foi criado no final do governo Lula e implantado no início do governo Dilma para elaborar e acompanhar as políticas públicas para a população LGBT. Elaborei um parecer do livro para o Conselho, que será enviado para que a Procuradoria Geral da República avalie se a obra viola a legislação brasileira em vigor e, com base nisso, tome as providências cabíveis.

O texto que posto aqui não é igual ao que o Conselho irá publicar em breve, pois foi adaptado para o nosso blog. O conteúdo, basicamente, é o mesmo. O livro A estratégia revela porque estamos vendo hoje no Brasil uma grande articulação de determinados fundamentalistas religiosos para tentar barrar o avanço de direitos e cidadania plena para a população LGBT. Você verá aqui como este livro tem servido para fomentar o ódio, a discriminação, a intolerância para com qualquer pessoa que não viva dentro de um conjunto bem rígido de normas.

O reverendo Louis P. Sheldon, autor do livro A estratégia – o plano dos homossexuais para transformar a sociedade, tem o explícito objetivo de convocar os religiosos do mundo para lutarem contra os direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais ou qualquer outra pessoa que não viva dentro de um modelo muito restrito de heterossexualidade, que pressupõe, por exemplo, o sexo apenas depois do casamento;

Para tentar atingir o seu objetivo, Sheldon recorre a algumas controversas ideias religiosas, distorce uma série de dados e, principalmente, mente sobre outra série de evidências históricas, amplamente estudadas e conhecidas pela sociedade. Tudo isso é feito para atingir o seu grande objetivo, explícito já na página 6 do texto. Diz ele: “(…) não são apenas os terroristas estrangeiros que devemos temer hoje. Os radicais mais perigosos que ameaçam nosso estilo de vida são aqueles que vivem entre nós (…) e você pode ter certeza de que eles nos destruirão se não tomarmos medidas para derrotar o movimento radical deles agora”;

Sheldon, em vários momentos, defende que a homossexualidade não é “natural e normal”. Cita, inclusive, alguns estudos acadêmicos que tentaram descobrir o “gene gay”. Para Sheldon, uma vez que ainda não se descobriu uma causa genética para a homossexualidade, os LGBT não são normais e, por isso, devem ser curados e não devem ter direitos. Ele defende, inclusive, na página 28, que a homossexualidade volte a ser considerada uma doença. Na página 251 defende que a homossexualidade seja tratada e na página 114 revela que ele próprio já realizou “terapias recuperadoras” em sua igreja nos Estados Unidos.

Como todos sabem, no dia 17 de maio de 1990, a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou o “homossexualismo” da lista internacional de doenças. No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia emitiu a resolução 01/1999, que proíbe qualquer psicólogo realizar algum tratamento para reverter a homossexualidade de algum paciente[1].

Realmente, os estudiosos da sexualidade ainda não chegaram a um consenso sobre se existe ou não algum componente genético que interfira ou gere a orientação sexual homossexual. Mas isso jamais pode ser uma razão para defender a patologização, a violência e o ódio para com os LGBT. Os/as estudiosos/as não possuem respostas “genéticas” para a homossexualidade, mas oferecem muitas outras respostas sobre como as pessoas, ao longo de suas vidas, passam a ter determinada orientação sexual e determinada identidade de gênero.

Os estudos[2] apontam que existem diversas orientações sexuais e identidades de gênero com as quais uma pessoa pode vir a se identificar. Nesse processo de identificação não existe apenas um fator ou ator social que influencia as pessoas. Trata-se de um complexo processo de identificação. Portanto, qualquer orientação ou identidade é legítima. A heterossexualidade é tão legítima quanto a homossexualidade, a bissexualidade ou a travestilidade. Todas são formas de vivenciar as múltiplas sexualidades e os gêneros.

Por isso, se a pergunta é qual a causa da homossexualidade, deveríamos também nos perguntar, como já fazia Freud, quais as causas da heterossexualidade. Assim como não existe consenso sobre a existência de um “gene gay”, também não existe um “gene heterossexual” e nem por isso os heterossexuais devem deixar de ser respeitados. Ou seja, o que efetivamente sabemos, e o livro de Sheldon é mais uma prova empírica disso, é que determinados setores da sociedade exigem que todas as pessoas devem ser heterossexuais. Por isso, a heterossexualidade é que se torna uma norma que todos devem seguir, que todos são obrigados a seguir;

Para Sheldon, os LGBT são um risco à sociedade porque desejam “destruir a família”. Ao acionar o ideal de família nuclear burguesa (pai, mãe, filhos), Sheldon novamente distorce evidências históricas amplamente estudadas por pesquisadores/as do mundo inteiro[3]. O que dizem esses estudos?

1. A família, tal qual concebe Sheldon, é também fruto de um longo processo histórico. Nem sempre existiu essa configuração familiar defendida por Sheldon. Basta lembrar da existência dos clãs, que são anteriores às famílias de hoje, e dos casamentos arranjados, nos quais as noivas eram escolhidas pelos pais do noivo.

2. As pessoas pobres, em especial as brasileiras, sabem muito bem que esse ideal de família defendido por Sheldon é tipicamente burguês. Nossas famílias são construídas em uma ampla diversidade de combinações, com filhos/as sendo criados/as por avós, tios, vizinhos, amigos, ou com apenas a presença da mãe[4].

Ou seja, ao defender apenas um tipo de constituição familiar, Sheldon, na verdade, atenta contra boa parte das constituições familiares que existem em nossa sociedade, disseminando o seu ódio para além da população LGBT;

3) Sheldon diz: “desde a época de Adão e Eva, as sociedades civilizadas entendem que a família consiste em uma mãe, um pai e os filhos”. Ora, além de exigir que todos acreditem na existência de Adão e Eva, Sheldon ignora que nem sempre o homem viveu em chamadas “sociedades civilizadas” tais como as conhecemos hoje. Trata-se de um pensamento tipicamente criacionista, que mente sobre dados e evidências históricas amplamente estudadas por pesquisadores do mundo, que demonstram que, ao longo da sua história, a humanidade passou por momentos de “barbárie” e com vários tipos de arranjos familiares;

4) Muitos LGBT, ao contrário do que diz Sheldon, gostam tanto dessa constituição familiar que desejam constituir uma, mas dentro de uma perspectiva ampliada, um pouco diferente. Tanto isso é verdade que o Supremo Tribunal Federal reconheceu, em 5 de maio 2011, a união estável entre pessoas do mesmo sexo. O STF entendeu que o artigo 3º, inciso IV, da Constituição Federal, veda qualquer discriminação em virtude de sexo, raça, cor e que ninguém pode ser diminuído ou discriminado em função de sua orientação sexual.

Ou seja, ao contrário do que apregoa Sheldon, a civilização nunca teve como base apenas um tipo de configuração familiar, mas uma ampla variedade de configurações familiares e de conjugalidades. Novamente fica explícito o quanto o pensamento de Sheldon se configura em um atentado à diversidade da sociedade como um todo, e não apenas contra a população LGBT;

Para provocar o ódio para com a população LGBT, Sheldon defende que os homossexuais disseminam o que ele chama de uma “cultura de morte” ou “estilo de morte” e não “estilo de vida”. Para ele, a Aids, as demais doenças sexualmente transmissíveis, a depressão e até o número de suicídios de jovens homossexuais comprovariam a sua “tese”. Para isso, ele usa de uma série de dados estatísticos que informam que o vírus HIV e os suicídios atingem mais os LGBT do que os heterossexuais, em especial os monogâmicos.

Para Sheldon, os homossexuais é que são culpados por serem vítimas da Aids e por cometerem suicídios. Trata-se de mais uma leitura absurdamente equivocada, intencionalmente distorcida para pregar o ódio. O que os movimentos sociais e os estudos mais respeitados informam é que a Aids vitimou e ainda vitima mais a população LGBT porque, entre várias outras razões, governos conservadores como o de Ronald Reagan, que Sheldon tanto elogia, não realizaram rapidamente ações de combate à disseminação do vírus HIV  porque, inicialmente, ele estava atingindo mais os homossexuais.

Esse dado histórico, motivado pela homofobia institucional de um governo, é solenemente ignorado por Sheldon. Foi por causa disso que um movimento social como o ACTUP, que Sheldon desonestamente critica, precisou realizar ações de desobediência civil para chamar a atenção da sociedade americana sobre o que estava acontecendo naquele momento nos EUA[5]. Até os cientistas políticos mais liberais defendem a legitimidade da desobediência civil em determinados momentos dentro de uma democracia[6]. Além disso, em nenhum momento Sheldon considera que os suicídios dos LGBT são motivados pelo fato dos heterossexuais radicais não aceitarem a diversidade sexual e de gênero existente em nossa sociedade. Ou seja, dentro da perspectiva de Sheldon, os LGBT se contaminam e se matam porque querem.

Em determinado momento, ele inclusive cita que alguns gays transam sem o uso do preservativo, o que seria prova de que os homossexuais desejam se contaminar. Ainda que existam alguns gays que resistem ao uso de preservativos, o que falta dizer é que não são apenas determinados LGBT que não usam preservativos, mas também milhares de heterossexuais fazem o mesmo e não são considerados, por causa disso, disseminadores de uma “cultura de morte”.

Além disso, Sheldon liga sempre a pedofilia com a homossexualidade, como se essa prática, considerada criminosa, não fosse encontrada entre a população heterossexual.

Outra ideia recorrente no livro ataca toda e qualquer ação nas escolas e universidades que vise o respeito à diversidade sexual e de gênero. Sheldon diz que estas ações teriam o objetivo de ensinar os estudantes a serem homossexuais (página 12) e de promover a homossexualidade. Diz que as universidades “estão tomadas por uma epidemia da diversidade” (página 176).

Trata-se de mais uma leitura equivocada, com a evidente intenção de disseminar o ódio homofóbico. O que os movimentos sociais e educadores defendem é que a escola seja um local onde se ensine o respeito à diversidade[7]. Os estudos acadêmicos, já desenvolvidos em vários lugares do mundo e que, nos últimos anos, têm crescido muito nas universidades brasileiras, mesmo com perspectivas metodológicas e teóricas distintas, são enfáticos ao defender que todas as orientações sexuais e todos os gêneros são legítimos e construídos também culturalmente.

Muitos desses estudos[8] desmentem outra ideia de Sheldon, a de que o comportamento homossexual foi proibido em toda a história da humanidade (página 251). Há dezenas de reconhecidos estudos, todos solenemente ignorados por Sheldon, que relatam que o sexo entre pessoas do mesmo sexo nem sempre foi considerado algo problemático em outros períodos históricos e sociedades. O que estes estudos apontam é que a partir do século 19 é que a homossexualidade passa a ser patologizada e criminalizada, através de uma impressionante sintonia entre igreja, Estado e cientistas.

O simples fato de promover estudos como esses e incentivar o debate para o respeito à diversidade é entendido por Sheldon como proselitismo gay. Historicamente, o que ocorreu e ainda ocorre é que as famílias, as escolas e a sociedade em geral ensinam, de forma coercitiva e autoritária, que todos sejam heterossexuais. Se existe alguma promoção em curso, há séculos, é em relação à heterossexualidade e não em relação à homossexualidade.

Em vários trechos, Sheldon ataca o Estado Laico. Na página 89, defende explicitamente um Estado com religião. Diz que “a separação entre Igreja e Estado é uma mentira”, mas defende que o Estado não interfira na religião e que os professores deveriam ter liberdade de ensinar religião aos seus estudantes.

No final do livro, ele conclama as pessoas a se unirem contra o Estado Laico (página 222). Trata-se, portanto, de uma ideia que atenta para um princípio base do sistema democrático. A separação entre a religião e o Estado permitiu que a diversidade religiosa fosse respeitada, o que possibilitou o fim de muitos e sangrentos conflitos. Portanto, a ideia de Sheldon representa um atentado ao Estado Democrático de Direito e a todas as denominações religiosas que não compactuam com as suas leituras fundamentalistas.

Portanto, suas ideias, como podemos ver, tentam acabar com outras expressões da diversidade existentes em nossa sociedade. Sheldon, por exemplo, além de atacar todas as pessoas que vivem em famílias diferentes da nuclear burguesa, vincula a decadência da sociedade com as conquistas das mulheres (página 39), ataca os adeptos do “amor livre” (página 69) e, ao tratar de promiscuidade, diz que as jovens usam roupas muito curtas e estimulam os homens (página 190). Por fim, ainda critica duramente os negros “de esquerda” (página 224) que defendem os direitos de LGBT.

Em vários momentos Sheldon diz que o livro que mais inspira os homossexuais éMinha luta, de Hitler. Como é de conhecimento público, um dos principais objetivos dos nazistas era o de aniquilar todas as pessoas diferentes, que não fossem brancas, tidas como saudáveis, fortes e heterossexuais. Centenas de homossexuais foram assassinados pelos nazistas. Ou seja, como poderiam os LGBT ter como fonte de inspiração um livro de Hitler? Por sinal, um livro proibido de circular por incitar o ódio antissemita. É exatamente a produção do ódio o que Sheldon faz em relação aos milhares de LGBTs existentes no mundo.


[2] Ver, por exemplo: BUTLER, Judith. Problemas de gênero – feminismo e subversão da identidade. Trad. Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008; LOURO, Guacira Lopes. (org.). O corpo educado – Pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.

[3] Ver, por exemplo, os clássicos ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do estado. 15ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002, e LEVI-STRAUSS, CLAUDE, As estruturas elementares do parentesco. Rio de Janeiro: Vozes.

[5] Sobre esse tema, ler MISKOLCI, Richard.  “A Teoria Queer e a Sociologia”, em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-45222009000100008

[6] Ler, por exemplo, RAWLS, John. O liberalismo político. São Paulo: Editora Ática, 2000.

[7] Ler, por exemplo, LOURO, Guacira Lopes et al. (orgs). Corpo, Gênero e Sexualidade: um debate contemporâneo na educação. Petrópolis: Vozes, 2003

[8] Ver, por exemplo, FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: a vontade de saber. São Paulo: Graal, 2005.

 

originalmente publicado em: http://www.ibahia.com/a/blogs/sexualidade/2012/08/30/desconstruindo-as-ideias-do-livro-de-cabeceira-dos-fundamentalistas-religiosos/#.UD9dL2ez33o.facebook

 

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