Botando lenha na fogueira LGBTTTIQ brasileira

por difama

Por Luanna Barbosa, do México.

O processo difamatório que se corporificou recentemente contra Tatiana Lionço é emblemático de várias questões simbólicas e estruturais que atravessam e mantêm nosso sistema. O caso poderia ser lido por meio de algumas variáveis, para citar as principais: a) a dominação de gênero; b) o fundamentalismo religioso; c) a fogueira das políticas de identidade LGBTTTIQ brasileira (e ocidental); d) as lutas pelos direitos humanos brasileiras (e ocidental).

Em uma primeira mirada, podemos pensar que Tatiana é uma mulher, e seus agressores são, em geral, homens. Talvez, se Tatiana fosse um homem heterossexual e viril (e que não deixasse margens à dúvida de se seria na verdade uma bicha no armário), as difamações e as agressões não houvessem ocorrido ou teriam sido “mais brandas”. Antes de um deputado e de um religioso que rebaixa a imagem de uma psicóloga, acadêmica e professora, o que se vislumbra é um homem que reage à ameaça de uma mulher, em uma certa posição social e política, que se destaca e que tem um público que deseja ouvi-la.

A ação desse homem é, atuando no real, negar-lhe seu lugar de fala, rebaixa-la, distorcer suas palavras, distorcer sua imagem, retorcê-la, até transformá-la naquilo que eu desejaria ser. Aquilo que eu não posso destruir em mim. Na imagem – digamos de passagem, uma belíssima foto – está escrito: “eu poderia ser uma atriz pornô”. Tatiana é reduzida (se bem que a frase é originalmente dela mesma, muda-se aqui o tom da enunciação, e ela passa de sujeito a objeto, da posição de orgulho à de injúria) ao fantasma da puta lasciva, produtora e emuladora do desejo do Outro – aquela que seduz, que atrai, seja à primeira vista para receber dinheiro, seja em análise mais “profunda” para deliciar-se com suas condutas pornográficas, aberradoras e perversas (por que o ator pornô seria menos culpável, nesse caso? Será que, se Tatiana fosse Tássio, e se ele tivesse atrás de si uma mulher deliciosa e sensual beijando seu pescoço, ele seria agredido com a frase “eu poderia ser um ator pornô”?). Eu não preciso sublinhar, como a própria Tatiana já comentou, que não existe nenhuma reprovação ou pré-conceito em relação à atividade das putas. Mas o caráter demeritório reside na forma como a frase é dirigida ao sujeito Tatiana (um sujeito feminino). A frase certamente não seria: “eu poderia ser uma geneticista”.

A análise que se vincula ao fundamentalismo religioso já foi bastante explorada nessa discussão, para quem a está acompanhando. Mas não seria em vão trazer de volta aqui o psicanalista Wilhelm Reich, em particular, seu livro, “Escuta, Zé Ninguém”. Que terror está implícito na cruzada de Bolsonaro e seus colegas quando difamam uma pessoa que está advogando a liberdade sexual – a bem da verdade, a saúde sexual – das crianças, para que elas tenham o direito a crescer como sujeitos felizes e plenos em sua humanidade? Mais além da comunidade religiosa, de seus valores, de seus ethos e de seus membros, estamos diante de um medo mais profundo e atávico. Estou referindo-me ao que Reich discutia como o medo da energia e da potência vitais (para não usar os termos exatos que o autor criou…) e da liberdade. Aos que desejem acusar-me de reducionismo psicanalista, ressalto que minha formação antropológica me garante o reconhecimento da experiência e da comunidade religiosas como constituidoras da subjetividade de diversos grupos humanos; e a certeza de que tais experiências não podem, de nenhum modo, ser reduzidas a uma interpretação psicologizante ou psicanalizante. Entretanto, é o terror de Bolsonaro e seus amigos o que catalisa suas reações de ódio: terror à potência vital, a uma força avassaladora, que é a sexualidade humana.

Tatiana é uma personagem, neste drama, que pode ser lida não só como mulher e como acadêmica laica, mas também como o que nós chamaríamos, nos debates atuais, de cis. Uma cis, uma pessoa que não passou pela transformação de gênero (será?). Denominação um pouco reducionista quando se pensa que tod@s passamos por diversas transformações a cada segundo de nossas vidas e que legitimaria apenas as transformações de sexo/ gênero como verdadeiras. Denominação afirmativa, estratégica e bem-vinda se a confrontamos a uma anterior que nos dividia em heterossexuais e homossexuais, por exemplo, ou em mulheres/homens biológic@s e mulheres/homens trans.

Tatiana, em uma classificação imediata, seria considerada cis. Ela não se transformou em um homem. É uma mulher biológica, fenotípica e jurídica. Existe uma certa fogueira contemporânea que se refere aos lugares de fala. Dizem que nós, pessoas cis, não temos o direito de falar em nome ou sobre as pessoas trans, ainda que estejamos conscientes de toda a discussão “pós-moderna” da antropologia sobre o poder do antropólogo e sobre a exotização dos “nativos”; ainda que estejamos interessados em escrever etnografias polifônicas, etnografias que evocam (mais que etnografias que descrevem) ou histórias de vida; ainda que, como pesquisadoras e pesquisadores, estejamos interessad@s em visibilizar o sofrimento das pessoas trans, lutar junto com essas pessoas pelos seus direitos e inclusive servir como catalizadores para que sejam estas as pessoas a falarem por si, daqui por diante.

Essa discussão poderia culminar com o fim da antropologia, da sociologia e das ciências sociais em geral, numa hipótese radical, porque excluiria um dos princípios antropológicos, por exemplo, que é o estudo da alteridade. Em uma hipótese menos radical, essa discussão levaria à redefinição da antropologia, modificando um de seus objetivos e permitindo o estudo não só do Outro como do próprio Sujeito. Poderíamos aqui esperar não só sete bilhões de auto-biografias levadas a sério como materiais acadêmicos, como teorias trans escritas por trans (o que já vem ocorrendo), além de pessoas cis tomadas como objeto de estudo, pelo ângulo do gênero. O preâmbulo na verdade visa a trazer ao cenário a pergunta: seria Tatiana vista como um sujeito menos legítimo para falar sobre o direito de liberdade sexual porque é uma pessoa cis? Será que, se Tatiana fosse uma pessoa trans, estaria recebendo agora mais apoio e mais visibilidade midiática? A pergunta pode parecer inocente, mas não é descabida nem aleatória. Eu não preciso ressaltar que o Brasil, atualmente, no que se refere às políticas de identidade LGBTTTIQ, pode ser “encaixado” em um panorama maior, que é o das políticas de identidade globais ocidentais, que delimitaram alguns rótulos estratégicos e ao mesmo tempo excludentes, com fins à luta pelos direitos humanos.

Esse ponto me leva ao último ângulo que elegi para tratar o caso da violência moral e simbólica que estamos assistindo em relação à Tatiana Lionço. Inúmer@s acadêmic@s brasileiros, sejamos cis ou trans, heterossexuais, bissexuais ou homossexuais, há alguns anos, viemos escrevendo, lutando, denunciando e brigando pelos direitos que são insistentemente negados à população que se acostumou chamar LGBTTTIQ (e que paradoxalmente exclui inúmeras alteridades locais, como são as bichas brasileiras). Citar o nome dessas autoras e autores seria uma injustiça porque eu poderia excluir, por alguma falha, o nome de algum ou alguma, além de excluir as inúmeras pessoas que por diversos fatores exercem essa luta de fora da academia. É preciso sempre reiterar que a luta pelos direitos humanos (seja dos grupos LGBTTTIQ, das pessoas com dificuldades de acessibilidade, das mulheres, das populações de baixa renda e de todas as minorias que re-conhecemos em nosso país) é uma luta que não deveria ser excludente.

Explico-me. Não é preciso ser mulher para ser feminista. Não é preciso ser viado para ser pró-LGBTTTIQ. Não é preciso ser cadeirante para lutar pela acessibilidade nos locais públicos. Por aí vai. Parece óbvio, mas nem sempre isso comparece como verdadeiro. O sexo, o gênero, a orientação sexual e as escolhas de objeto de Tatiana Lionço são absolutamente irrelevantes aqui, seja no que se refere ao seu ativismo como pessoa, seja no que se refere ao seu lugar de voz como pesquisadora. Será que, caso Tatiana se assumisse abertamente como lésbica ou como trans, suas palavras seriam alvo de menor violência? Existiria algum mecanismo que estaria excluindo Tatiana do âmbito da luta pelos direitos humanos, pelo fato de ela não se vincular explicitamente a nenhum dos clubes? Essa pergunta também pode parecer inocente, mas tampouco é aleatória e nem pode ser descartada. Seguindo a velha discussão butleriana e fazendo um paralelo, não podemos falar de feminismo, e sim de feminismos.

Lutar pela educação, pela liberdade de expressão e pela liberdade sexual, bem como ressaltar as questões jurídicas envolvidas nesta situação são as facetas mais óbvias deste grande isto. Entretanto, analisar outros fatores mais embrenhados neste pântano que jorrou recentemente nos interstícios midiáticos exige a reflexão de pelo menos esses quatro fatores. O que ocorreu com Tatiana (e que poderia ocorrer comigo ou com outr@s de nossa pequena confraria subversiva) é uma chamada no real das estruturas que configuram nosso país patriarcal, misógino, racista, homofóbico, fundamentalista, classista, infrator da dignidade humana e da liberdade à vida. Calar-se diante disso é a omissão mais violenta que perpetua esta agressão simbólica. Nós não abriremos mão desta luta, ainda que os resultados não venham a ser observados por nós, talvez só por nossos bisnetos. O sistema de sexo/gênero é uma maquinaria perfeita. Por isso, sua estrutura é tão intrincada. Não seremos nós a derrubá-lo, mas isso não torna nossa batalha estéril e infrutífera.

Epahe, Tatiana.

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