Político da vergonha: tire o teu pau das nossas vidas

por difama

Por Tatiana Lionço

Acabamos escutando tantas menções à cena sexual proferidas pelo político da vergonha que quase não é mais possível discutir política sem falar abertamente de sexo. Estamos, na verdade, lutando pela nossa indiferença sexual. Não queremos mais ficar sendo apontada/os em relação às nossas vidas sexuais privadas, não queremos mais ficar sendo lembrada/os das fantasias sexuais alheias ao nosso respeito. Queremos a indiferença sexual.

Sabemos que esta tarefa é árdua, e para tanto temos que ficar lembrando à sociedade como as pessoas fazem sexo. Beijo na boca, exemplo singelo de como a sexualidade é em grande parte alheia à intenção de procriação familiar. Ficarei por aqui, não gostaria de me estender tanto no tema das cenas sexuais quando quero intencionalmente tratar de temas políticos.

Acontece que, nos corredores da Câmara dos Deputados, existe um mural da vergonha. Ali não consigo ver mais do que a revelação das habilidades em montar painéis, mas certamente de modo bastante retrógrado em relação às novas tecnologias informativas e novos dispositivos de midia. Ali se amontoam fotos e frases, como naqueles murais das escolas de ensino fundamental. Fico satisfeita em saber que algo se aprende neste país nas escolas, mas não posso deixar de salientar que me entristeço com o fato de que nas escolas não se ensina suficientemente os ideais democráticos, o respeito à diversidade social, a ética da igualdade. Penso mesmo que há um sério problema na educação nacional se ela pode decorrer em capacidade de materializar um mural da vergonha e não na disponibilidade à transparência e ética no trato cotidiano.

O político da vergonha na verdade não está trabalhando sozinho em seu projeto envergonhador, há muitos parceiros, dentro e fora do Congresso Nacional. Tomemos apenas alguma palavras proferidas em plenário para pensarmos a respeito do projeto político. “Vai queimar rosquinha onde tu bem entender”. Não sou eu quem está dizendo isso, eu estou bastante atenta a direitos autorais e atribuo a fala ao político da vergonha. Não é justo colocar palavras assim na boca de ninguém. Não sou eu a dizer. A questão é que temos que escutar isso e pensar a respeito, pois estamos sendo invadida/os pela mentalidade alheia de modo desconcertante.

Eu diria que fiquei muito insatisfeita com as últimas palavras públicas do político da vergonha. Disse ele que os homossexuais “vão levar pau aqui dentro, e o pau que eles vão levar não é aquele que eles gostam não”. Isso me fez pensar à revelia no pau do político da vergonha e no pau que haveríamos de gostar. O máximo de conclusão que cheguei a respeito é que eu não tenho e não quero ter nada a ver com o pau do político da vergonha.

Vejam bem, eu, enquanto mulher, feminista, irredutível tanto em relação à homossexualidade, heterossexualidade, transexualidade, travestilidade ou o que mais caiba na fantasia de pessoas quaisquer ao meu respeito, digo agora que basta de pau. Não quero pau, estão enganados. Digo isso em nome da luta feminista, não queremos pau, estamos reivindicando parar de tratar disso.

Pensei com simpatia em muitos homens sem pau que eu conheço. Eles nos ensinam que o que faz o homem não é o pau, há muitos homens que não precisam de pau nenhum para se afirmar ou se posicionar, seja real ou metaforicamente. Fiquei pensando nisso por umas duas horas hoje, durante o dia, e agora me veio uma ideia vaga e reconfortante, a de partilhar de uma luta por uma sociedade onde poder não seja sinônimo de pau.

Esta é a nossa proposta de justiça feminista: político da vergonha, tire o teu pau das nossas vidas.

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