Quem é “a nova direita”?

por difama

originalmente publicado em 23 de agosto de 2012 em: http://ensaiosdegenero.wordpress.com/2012/08/23/quem-e-a-nova-direita/

por Adriano Senkevics

 

Já faz algumas décadas que se discute o que seria uma “nova direita”. Católicos ortodoxos, militares golpistas, monarquistas ultrapassados… tudo isso é a “velha direita”, já meio careta, capenga e broxa. Do ponto de vista político, um fiasco. Esses, mesmo dando um golpe aqui ou acolá, não podiam ser considerados a “nova direita”; o título não lhes cabia. Passou-se adiante.

A presidenta Dilma e sua proximidade com Kátia Abreu (PSD), um dos maiores nomes entre os ruralistas: a “velha direita” articulada à “nova”.

Depois, com a crise dos anos 70, surgiu uma classe de capitalistas globais daquelas… Eram os tais “neoliberais”: privatizando empresas, flexibilizando direitos, contabilizando gestões. Esses se tornaram grandes candidatos a ocupar o cargo da “nova direita”. Mas, no fundo, eles nada mais eram do que os antigos liberais conservadores, só que ocupando as bolsas e não mais as fábricas. Pois, eles não eram tão “novos” assim.

Em seguida, falou-se do crescimento mundial do evangelismo como uma espécie de “neopentecostalismo” conservador. Eles foram ganhando os cristãos e as bancadas e se tornaram entraves a conquistas sociais no Brasil e em outros países. Multiplicaram-se como outrora fizeram as filiais do McDonalds. Mas, o que eram eles além de uma repaginação do fundamentalismo? Não, eles não podiam ser a “nova direita”.

Posteriormente, com a atual crise, veio à tona os “neonazistas”. Aparentemente mortos, com exceção de alguns maníacos por aí, eles criaram partidos e dominaram bairros, ganharam a Europa como um tabuleiro de War. A xenofobia aumentou e eles se orgulharam de mostrar a versão atualizada do “Heil Hitler”, além de suas inconfundíveis carecas. Mas, peraí, eles só se baseavam no passado. É claro que não podiam ser a “nova direita”!

A aliança política entre Haddad e Maluf, acompanhados por Lula: quando a ganância eleitoreira desconstrói programas e ideologias políticas.

A “nova direita”, portanto, não vai ser nada que é “neo”: neoliberal, neopentecostal, neofascista. Porque o “neo” é simplesmente um update do que já foi velho. O velho não pode ser o novo, obviamente! Assim, novamente me pergunto: quem é a “nova direita”?

Se é que podemos falar de uma “nova direita” no Brasil – a polêmica não é se é de direita, e sim se é nova –, ela é sem dúvida o PT e toda a corja da “antiga esquerda” que se sindicalizou, que se articulou a movimentos, que promoveu grandes greves (e comprometimentos maiores ainda) e que hoje está cumprindo à risca as agendas mais conservadoras, dignas dos melhores direitistas. A “velha direita” não precisa fazer nada, porque a “nova” já a superou. Hoje, os tucanos agradecem, o Maluf se gaba, o centrão se atiça, os empresários dão risada, os fundamentalistas se ajoelham, os ruralistas invejam: nunca a direita conseguiu ir tão longe sem ter que, antes, dar um golpe de estado.

Quando a postura “nova” de Dilma Roussef a faz ser elogiada e reverenciada nos meios da “velha direita”. Aqui, destaca-se que uma “ex-marxista” está à frente de uma máquina empresarial.

E por que estamos diante de uma “nova direita”, se ela está tão atolada de velhos vícios? Ela é “nova” porque, como ‘nunca antes na história desse país’, articulou a essa cartilha conservadora um discurso absolutamente modernizador, social, desenvolvimentista e, quando não, de “esquerda”. Entidades como MST, CUT, UNE, LGBT, feministas etc, foram sendo engolidos: viraram secretarias, poliram suas campanhas, ilustraram seus palanques, ganharam adesivos. Em retorno, poucos avanços na diversidade sexual, retrocessos na educação, nada de reforma agrária, ameaças às pautas das mulheres, entre outras.

Na prática, a “nova direita”, amiga de todas as (ou de pelo menos todas as maiores) forças dominantes e mesmo as contradominantes tem feito aquilo que nenhuma “velha direita” jamais conseguiu fazer: o progressivo desmonte de um Estado de direito com amplo consenso popular.

As dúvidas que permanecem são: Assistiremos de camarote a esse crescimento? Continuaremos a reiterar velhas escolhas por “falta de opção”? Permaneceremos dando nosso suor por um projeto de poder claramente conservador, para não dizer reacionário? Até que ponto vamos engolir que as decepções com nossos governantes são “casos isolados”? Por quanto mais vamos esperar o que não vem e nos contentaremos com o pouco que nos é dado? O fato é que a hegemonia nunca esteve tão à flor da pele e está na hora de refazer nossos caminhos e perspectivas.

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