Carta da Cia. Revolucionária Triângulo Rosa a todos o/as parlamentares do Congresso Nacional sobre o livro “A Estratégia”

por difama

originalmente publicado em 03 de maio de 2012 em: http://ciatriangulorosa.info/?p=167#more-167

Senhores e Senhoras Parlamentares,

Em 1897, apareceu na Rússia um documento intitulado “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, de autoria da polícia secreta do Czar Nicolau II. O documento, falso, acusava os judeus de armarem uma conspiração para ter o domínio mundial. Mais tarde, o documento foi instrumentalizado por Hitler para justificar o extermínio de judeus. Como é possível perceber, um documento falso utilizado para reforçar posições políticas pode ter uma utilização ainda mais espúria: justificar genocídios.

Pois, surpresos, soubemos que cada parlamentar recebeu um exemplar do falacioso livro “A Estratégia – O Plano dos homossexuais para transformar a sociedade”, do Pastor Louis Sheldon, aonde se forja uma suposta conspiração homossexual para o domínio do mundo. Ou como disse outro senador, montar um “império homossexual”.

Mas como montar um império homossexual se a organização dos sexodiversos é muitas vezes mais frágil do que tantos outros setores da sociedade? Ora, querer que o mundo seja menos intolerante é querer o domínio do mundo? Lutar pelo direito à indiferença é querer implantar uma “ditadura gay”? Querer uma sociedade mais inclusiva, onde o gênero, orientação sexual e identidade de gênero não sejam motivos para discriminação, para a diminuição cívica de violência é querer o domínio do mundo? Por que tanta energia gasta por parte dos fundamentalistas religiosos em combater o que seres humanos fazem, consensualmente, em suas camas e com seus corpos? Porque não concentram seus esforços em diminuir a desigualdade social, por exemplo?

 
Diante da imensa responsabilidade que o/as parlamentares têm diante do Brasil e da proteção da Constituição Federal, é importante que atentem para mais essa tentativa de manipulação por parte dos fundamentalistas religiosos (e outros representantes do poder público aliados a esses) da questão da homofobia no Brasil. O livro “A Estratégia”, afirma que a homossexualidade é “perigoso distúrbio emocional” – quando a OMS e o Conselho Federal de Psicologia não a considera doença, sequer perigosa. Compara LGBTs a terroristas, que propalam um “discurso violento vindo das profundezas do inferno”.

A Organização das Nações Unidas não estaria preocupada com a condição vulnerável dos homoafetivos se fôssemos terroristas. O livro ainda afirma que os “promotores do plano homossexual são pessoas cheias de ressentimento e ódio, misturados com auto-rejeição e vergonha” (sem apresentar nenhum dado empírico que comprove o argumento) e que tem o “cristianismo como verdadeiro inimigo” (onde ficam as diversas igrejas cristãs inclusivas nesse argumento?).

 
O livro claramente alimenta o ódio contra os sexodiversos e não deveria ser levado a sério por nenhum defensor da Democracia e dos Direitos Humanos. Vale a pena lembrar que a liberdade de expressão não é absoluta, pois há prevalência dos princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade jurídica e que, em um Estado Democrático de Direito, o respeito pelos princípios que garantem os Direitos Humanos deve ser intransigente e constante. Acreditamos que um livro que acusa irresponsavelmente e que incita o ódio e a discriminação, fere o ordenamento jurídico de nosso país.

Como militantes sexodiversos afirmamos que cristãos não são nossos inimigos. Pelo contrário: os que têm o amor como orientação maior de suas vidas e seguem as palavras de Cristo (que dedicou sua vida à defesa dos explorados e oprimidos) são nossos aliados. Nossos inimigos são sim aqueles que exploram a fé do povo pobre e crédulo para construir verdadeiras fortunas, isentas de impostos, e elegem bancadas parlamentares com um discurso fundamentalista que impõe a toda sociedade padrões de comportamento que deveriam dizer respeito somente às suas igrejas. E para alcançar esse fim alimentam o ódio contra minorias da nossa sociedade.

Unimo-nos a Cristo no combate aos hipócritas.

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