Carta aberta ao Rev. Alberto Thieme

por difama

Gostaria de esclarecer que sinto profundo respeito por autoridades religiosas, embora o meu respeito a elas não seja incondicional. Meu respeito a padres, pastores, pais e mães de santo, rabinos ou quaisquer outras autoridades religiosas é o mesmo que tenho por ateus, sempre condicionado ao meu reconhecimento por sua função na promoção da paz e justiça social, bem como no amparo de pessoas aflitas neste nosso mundo permeado por violência. Gostaria de esclarecer que não deve esperar de mim respeito nenhum além daquele básico, ao qual todos e todas estamos condicionados por força da lei, que expressamente estipula discriminação, injúria, difamação e calúnia como infrações morais e penais.

Não preciso adotar os mesmos princípios morais baseados em doutrinas religiosas para compartilhar moralidade com as pessoas que eu respeito profundamente. Na verdade, compartilhamos de uma ética fundamental, a do respeito incondicional à dignidade humana. Dignidade pode até ser um valor relativo, tendo diferentes doutrinas morais distintos argumentos para estipular em quê alguém poderia ser considerado pecador, imoral ou indigno. Apesar de ter conhecimento de que muitas doutrinas expressam abertamente a atribuição da imoralidade a determinadas práticas e grupos sociais, também é do meu conhecimento que, do ponto de vista do Direito, dignidade é um princípio inviolável. Isso quer dizer que, a partir da diversidade moral presente em nossa sociedade, e expressamente defendida como valor social em nossa Constituição Federal, a atribuição de imoralidade com base em doutrinas específicas pode vir a consistir em severa violação do direito humano à dignidade.

Entendo que se baseie em preceitos morais específicos para expor meu nome e minha imagem na internet de modo desqualificador. Sei também que o seu direito de expressar este valor ao meu respeito é relativo, sempre condicionado e cerceado pelos meus próprios direitos humanos e sociais. Eu já alertei o senhor para o fato de que, ao menos do meu ponto de vista, estás a violar meus direitos. Talvez do seu ponto de vista esteja prestando um ótimo serviço à sua comunidade, um ponto em que discordamos radicalmente.

Entendo a sua função social junto à comunidade. Eu mesma tenho uma grande responsabilidade junto à comunidade, pois também a represento. A grande diferença entre nós dois é que eu tenho tal compromisso ético com a comunidade que entendo que represento a sociedade como um todo, enquanto o senhor talvez entenda que represente especificamente uma dada comunidade, que menciona como sendo a heterossexual. Entenda que eu também represento heterossexuais. Entenda que eu também me sinto responsável pelo meu discurso perante comunidades religiosas. Entenda que eu me sinto responsável, neste momento, pelo mundo inteiro, diferentemente do senhor, que me parece se sentir responsável apenas por uma parte da sociedade.

Gostaria muito que esta carta aberta que lhe dirijo chegue aos seus fiéis. Segundo a nossa Constituição Federal, eles mantém, ainda que sob a sua orientação, o direito inviolável à liberdade de crença. Todas as pessoas tem garantidas por força da democracia a autonomia na significação de doutrinas, mesmo a aquelas a que estão submetidas quando membros de uma igreja. Gostaria que todas as pessoas, e não apenas algumas a quem o senhor julga que eu represente, tivessem o direito a conhecer como eu penso sobre o que estás a fazer comigo.

O que eu entendo que estás a fazer comigo não é um ataque pessoal, ainda que veicule o meu nome e a minha imagem, sem a minha autorização, em suas redes sociais. Eu entendo o seu ataque como uma afronta à sociedade, aos ideais democráticos, ao ser humano, à liberdade. Eu entendo que estás a prejudicar o nome da Igreja que representa. Mas entenda o senhor que eu respeito as igrejas, desde que elas não agridam a dignidade de pessoas, quaisquer que sejam, sem discriminação.

Não quero tomar muito do seu tempo, mas ainda gostaria de dizer abertamente ao senhor que não me conhece. Nunca esteve comigo, sequer leu o que eu penso. O senhor se pautou em uma manobra grotesca e injusta de um de seus representantes no parlamento, o Deputado Federal Jair Bolsonaro, para tecer julgamentos ao meu respeito.

Gostaria de dizer ao senhor que um dia tive a oportunidade de receber um elogio que me encheu a vida de orgulho, porque o recebi de uma pessoa que respeito muito e reconheço como uma autoridade que em muitos momentos fez justiça neste país. Me refiro aqui ao ministro do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres Britto. Disse o ministro a mim pessoalmente que minhas ideias eram brilhantes. Entendi o elogio como o reconhecimento de que minhas palavras e minha atuação política trazem um pouco de luz ao mundo das trevas em que nos encontramos.

Já as palavras que o senhor associa ao meu nome e à minha imagem na internet não me pesam tanto, pois o jugo da vergonha que o senhor quer me impor não me atinge. O senhor está equivocado ao meu respeito. Eu já informei diretamente ao seu blog que estava a mover um processo judicial contra o senhor e todos aqueles responsáveis pelo que está acontecendo, esclarecendo que estão a me violar. Na falta de cuidado e de prudência do senhor e outros, eu venho publicamente esclarecer que nós, mulheres, não podemos ser menosprezadas. Não nos menospreze, pois estarás a subestimar a força da justiça que recairá sobre os acontecimentos.

O senhor não irá interromper o meu trabalho por meio desta política da vergonha que vem adotando. Eu não tenho vergonha. Minha fé é imensa, e eu me fortaleço no enfrentamento de todos os obstáculos que me dão a oportunidade de reafirmar o sentido de minha luta política por justiça.

Justiça seja feita. Amém. Axé.

Tatiana Lionço

24 de agosto de 2012.

esta é a luta feminista. Tatiana Lionço, marcha das vadias, 2012.

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