A homofobia faz parte do Estado teocrático

por difama

originalmente publicado em:  http://www.atarde.uol.com.br/muito/materias/1447525-%22a-homofobia-faz-parte-do-estado-teocratico%22

 

Entrevista de Pedro Fernandes | Ag. A TARDE a Jack Halberstam.

Jack nasceu Judith Halberstam, mas adotou para si a identidade masculina. Ele, que é diretor do Centro de Pesquisa Feminista da University of Southern California, assinava seus livros, que tratam de questões de gênero e sexualidade, com o nome feminino, mas em sua publicação mais recente, Gaga Feminism, o nome masculino já aparece de maneira oficial. Da mesma maneira que tensiona os limites entre os gêneros, Jack também o faz com suas ideias, que colocam em xeque classificações generalizantes, como gay, lésbica e transgênero, além de noções caras à militância gay, como a conquista de direitos civis. Para ele, que esteve no início de agosto em Salvador, no VI Congresso Internacional de Estudos sobre a Diversidade Sexual e de Gênero, mais que a garantia de proteção legal contra a homofobia, é preciso combater a sociedade homofóbica em suas raízes.

Hoje pode-se dizer que estamos vivendo uma mudança de paradigma nas questões de gênero? Por quê?

Eu diria que a causa dessa mudança é tudo. Porque o mundo mudou tão rápido em termos de globalização, economia, de estruturas sociais como família, casamento… Essas coisas mudaram tão rápido nos últimos dez anos que parece, para mim, que o que entendemos por gênero e sexualidade é completamente diferente do que isso significava há dez, vinte ou trinta anos. Mas a academia é muito lenta. Acadêmicos não se ajustam tão rápido quanto deveriam para registrar essas mudanças na estrutura social.

Como isso está acontecendo?

Esse colapso econômico massivo nos Estados Unidos e Europa foi criado pelo excessivo investimento no capitalismo. E agora as pessoas querem discutir esse capitalismo em que 1% da população fica com as riquezas e os outros 99% são explorados. Acho que as pessoas podem estar procurando por sistemas econômicos diferentes. Pela primeira vez, desde a queda do comunismo, há um sentimento de que precisamos de uma alternativa. Isso traz o próprio conjunto de mudanças, eu diria. Mercados do Sul Global, como China, Brasil, Austrália, estão se expandindo, enquanto Estados Unidos e Europa estão falhando. Talvez isso crie a possibilidade de alguma mudança nessa velha estrutura colonial, que faz do conhecimento algo que deve ser produzido no norte para ser aplicado no sul.

Como o conceito de família muda em função disso?

O conceito de família que conhecemos depende das estruturas capitalistas. Frequentemente, em muitas sociedades, homens fazem mais dinheiro que mulheres, porque há a ideia de que o homem é o chefe da ordem do lar. Mas, nessas economias em colapso, as mulheres estão mantendo mais os seus empregos que os homens, então há uma alta taxa de desemprego entre os homens e altas taxas de emprego entre as mulheres, o que muda tudo. Isso muda radicalmente a relação entre homem e mulher. Mas há outras formas de arranjo familiar. Temos que olhar para essas novas formas e tentar entender o que elas significam.

Você fala de outras formas de vida em comunidade que não apenas a família. Que formas seriam essas?

A família é uma forma muito pouco criativa de criar crianças, de desenvolver comunidade e distribuir riquezas. Por quê? Qual a principal conexão que existe em uma família? Biologia. Mas isso não pode ser a única coisa que cria comunidade. Deixar de lado a biologia nos ajuda a pensar em quão ricos podemos ser se fizermos causa comum. Na vizinhança, as pessoas podem se relacionar não porque são parentes, mas porque se preocupam com o espaço em que vivem e uns com os outros. Isso me parece mais a base da coletividade do que família. Novamente, estamos tão presos a essa ideia, que é tão cara aos discursos religiosos sobre comunidade, que nós falhamos ao tentar enxergar outras maneiras. Quando você se livra da questão biológica, tudo é possível.

Qual o papel da mídia, da música, da literatura nessa mudança de paradigma?

Muitas vezes, a música, filmes refletem esse conjunto de mudanças. Mas não acho que elas engendrem essas transformações. Em meu livro Gaga Feminism, eu uso Lady Gaga como símbolo. Não digo que ela é a autora de algo, ela não cria agenda política, ela não é uma figura política, mas é um símbolo, uma representação de algo novo. E nós não sabemos como classificar essa novidade, mas vemos que há algo de diferente nela e que nós gostamos. E, de repente, ela se transforma rapidamente em algo velho, e nós estamos fartos dela. Mas é isso que a cultura pop faz, dá visibilidade para algo novo e, depois que as pessoas reconhecem isso, há que se abrir caminho para a próxima coisa.

Conceitos como gay, lésbica e transgênero estão obsoletos?

Eles não estão obsoletos, mas hoje são antiquados e não descrevem bem muitas e muitas pessoas. Eles se tornaram categorias tão fixas, e há tantas pessoas que ficam entre um e outro, que são apenas esboços grosseiros de formações identitárias, e nós precisamos atualizar essas classificações. O outro problema é que elas representam um modelo euro-americano de pensamento sobre a sexualidade. Há muitas outras línguas que as pessoas usam para diversidade sexual e de gênero e que trazem diferentes significados. Não há, por exemplo, uma tradução para o inglês para “travesti”, ou para “transformista”. Esses termos têm os próprios significados. São descrições de formações sexuais em um tempo e em lugar específicos e não podem ser capturados por gay, lésbica ou transgênero, que não funcionam globalmente.

O mesmo pode ser dito dos conceitos de homem e mulher?

Homem e mulher são termos globais. A maioria das sociedades usam o sistema binário de gêneros. Mas esse sistema funciona de diferentes maneiras em diferentes lugares. Uma mulher do Equador, ontem, me falou sobre um grupo de homens transgêneros que nasceram em corpos femininos, se identificam como homens, mas também tiveram bebês. Eles são mães. Eles são masculinos, mulheres e mães. Qual o nome para isso? Há um nome em espanhol para isso, que eles usam, mas não há equivalente em outra língua, porque é uma forma muito particular de identidade.

Você diz que não temos que abolir a homofobia, mas a sociedade que depende da homofobia. O que isso quer dizer?

O problema em abolir isso ou aquilo é que você pensa que se livrando daquela instituição você resolve o problema. Nós vivemos em uma sociedade que depende da homofobia e da transfobia para legislar e dizer “é assim que deve ser um homem” ou “é assim que deve ser uma mulher”, “é assim que uma família deve funcionar”. Então não é suficiente, politicamente, abolir a homofobia, mas a sociedade que se abriga nela. É um projeto bem maior. O que as discussões sobre direitos fazem é ir atrás do comportamento associado à homofobia, mas não vai a fundo, nas raízes para descobrir como essa sociedade se formou. Para isso, seria necessário mudar muitas coisas e não apenas garantir diretos. Israel, por exemplo, tem leis para proteger gays e lésbicas, mas é um país muito homofóbico. Em parte por causa da religiosidade do estado. Não é suficiente dizer “nós protegemos gays e lésbicas” se você ainda se mantém como um estado teocrático. O mesmo acontece nos EUA, há bastante proteção legal, mas a homofobia está incorporada no cristianismo.

Por que transgêneros femininos (de homem para mulher) têm mais visibilidade que transgêneros masculinos (de mulher para homem)?

A palavra transgênero é um agrupamento de muitos desejos. Transgênero pode ser um homem que quer ser uma mulher e faz várias cirurgias, tem muita visibilidade, casa com um homem. Ou pode ser alguém que não fez muitas cirurgias, toma alguns hormônios que comprou no mercado negro, faz alguns trabalhos sexuais. Ou pode ser uma mulher que deseja se tornar homem, mas ninguém faz muito caso disso e ela se torna invisível. Quando um homem quer se tornar uma mulher, há ideia de que é fácil, porque a mulher já é artificial, então basta se vestir, usar maquiagem e salto. A mulher que quer se tornar um homem enfrenta mais problemas porque há tanto poder social investido na categoria homem que não acreditamos que isso possa acontecer. Acreditamos que masculinidade é uma prerrogativa de corpos biológicos e um lugar de privilégio social. Então a sociedade se interessa menos por mulheres que se tornam homens que por homens que se tornam mulheres, que são considerados fabulosos, expressivos culturalmente. O homem transgênero, por outro lado, é alguém que está invadindo o território da masculinidade, que é protegido por homens, para os homens. Então eles passam despercebidos.

Você usa a expressão gay global para se referir a certo tipo de pessoa homossexual. O que isso quer dizer?

O gay global está associado ao que chamamos de pink money, à ideia de que há grupos privilegiados de gays e lésbicas. Eles investem no status quo desses grupos e tudo que querem é o reconhecimento deles. Não querem mudar as coisas, não querem ser radicais. Eles têm dinheiro, ganham bons salários. Como têm poder econômico e político, acabam sendo os representantes oficiais do que é ser gay globalmente. Ele vai para o Rio de Janeiro. Ele se importa com o Brasil? Não necessariamente. Está à procura de um certo tipo de rapaz local, pelo qual vai estar feliz por poder pagar. O gay global diz respeito ao turismo sexual, ao pink money e à produção de certas narrativas sobre o que é ser gay, moderno, liberal. Essas noções estão atreladas ao homem gay branco, não dizem respeito ao gay afeminado que mora na periferia, que é visto como um anacronismo, porque ele não é o gay global, não é a elite. Então isso cria uma estrutura classista dentro da minoria.

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