Sobre vadias, violência, catolicismo e imagens sacras quebrando: Lacan explica

por difama

Por Tatiana Lionço

Durante a marcha das vadias do Rio de Janeiro, ocorrida no dia vinte e sete de julho de 2013, contemporaneamente à visita do papa Francisco ao Brasil, um pequeno grupo de ativistas realiza uma performance expondo nudez e cenas sexuais junto a santas e crucifixos. Introduzem o crucifixo no ânus e enfiam a cabeça de uma santa na vagina. A performance chocou vadias peregrinos e teve como desdobramento uma avalanche de acusações de imoralidade e degradação às pessoas participantes do ato polêmico.

Não foi possível esquecer o episódio envolvendo as feministas anarcopunk russas da banda Pussy Riot. Na Rússia, o destino das garotas foi o encarceramento ou a fuga, já que o Estado as reconheceu culpadas pela profanação da virgem na performance realizada na catedral. Naquele momento o mundo feminista se comoveu e muitas pessoas passaram a alegar arbitrariedade na punição diante da discrepância entre o dano decorrente do ato e o dano decorrente da prisão na vida das jovens mulheres. No Brasil, as pessoas vem questionando por que a quebra dos objetos sacros traria maior comoção do que o feminicídio sistemático e as violências racistas, homofóbicas e classistas, diante das quais o país ainda se mantém inerte.

Curiosamente, no Brasil as mesmas pessoas que vestiram a camiseta das Pussy Riot, entre outras mais evidentemente avessas ao ativismo feminista, passaram a jogar pedras e a vociferar: nojo! Como haveriam de não respeitar católicos, se todas as pessoas merecem respeito? A questão é que, durante a visita do papa ao Brasil nada se discutiu sobre os abusos da Igreja Católica envolvendo pedofilia, matrimônio e paternidade não reconhecidos, escândalos sexuais no Vaticano e nas dependências da casa do Pai mundo afora ou sobre a vinculação formal da Santa Sé à indústria bélica.

Alguma coisa se disse sobre homossexuais, algo como que eles estariam perdoados se santos. Sobre a vida sexual das mulheres alegou-se que direitos reprodutivos não é coisa de Deus, sequer a anticoncepção de emergência em casos de estupro. As palavras amenas de Francisco não foram suficientes para dirimir a revolta diante dos materiais supostamente de Bioética que levaram milhares de pessoas a acreditar em falsas verdades sobre práticas de anticoncepção. Também a Igreja Católica atuou com violência simbólica ao distribuir pelas ruas bonecos de plástico em formato de fetos humanos, um modo de lembrar às mulheres que já praticaram o aborto de que elas são culpadas, pecadoras, reforçando o seu sofrimento moral.

Lacan, ao discutir a psicose e suas produções delirantes que lançam a vida para fora do universo simbólico compartilhável, afirma que aquele conteúdo mnêmico foracluído retorna no real. O que o psicanalista quer dizer com foraclusão é que há traços de memória que podem vir a ser expelidos para fora do sujeito, retornando de fora, um conteúdo projetado porque insuportável que reaparece como assombração real. Aquele conteúdo excluído da consciência retornaria na realidade, como que vindo de fora.

Sobre a polêmica performance de sexo com crucifixos e santas, pode-se entender que se tratou de um ato de recuperação forçada, pela realidade, da violência do catolicismo, omitida senão suprimida durante a visita papal. É possível compreender aquele ato em uma matriz simbólica compartilhável. Trata-se de performance pornoterrorista, uma estratégia do feminismo radical e das produções queer que visa expressamente apresentar, e não discutir ou negociar, cenas impensáveis do ponto de vista da adequação à moralidade patriarcal e à ordem vigente. A marcha das vadias passou a ser reduzida ao ato de pornoterrorismo, e a sociedade novamente teve a sua oportunidade de soterrar conteúdos tais como pedofilia generalizada e escândalos sexuais no Vaticano, banalizando o acontecimento como ato infracional ou desgovernado de mulheres e homens não cristãos ou católicos que estariam bestificados, endemoniados, pervertidos ou mesmo doentes.

É preciso lembrar que mesmo o papa existindo, ainda assim existiram, existem e existirão vadias e outras pessoas consideradas indignas pela moralidade patriarcal e católica. Lembremos também que as vadias somos nós, mulheres, as mesmas que se expõe compulsoriamente ao jugo do papa. As putas somos nós mães, as católicas, somos nós as depravadas. As que abortam e lésbicas também, muitas vezes, são católicas. Estamos tendo a oportunidade de reconhecer que a violência existe entre nós, e que os parâmetros de reação à violência são tão distintos quantas forem as formas da violência.

A questão é que estamos prestes a legitimar, em alguma medida, a violência, e isso é fundamental para dominarmos a onda de violência que nos arruina. Precisamos impor ao menos limites ao impossível de ser suportado. A questão, portanto, passa a ser a do tipo de violência que suportamos, pois sempre haverá discórdia e violação em um mundo moralmente diverso, ainda que alcancemos um limite para a violência que preserve a vida das pessoas envolvidas e não recaia na saída fácil do extermínio cruel de existências, com requintes de tortura, durante muitos séculos adotada, inclusive formalmente, pela Igreja Católica.

A expressão simbólica e performática da violência, ou seja, a representação da violência, é sempre uma forma de veicular violência, no mínimo simbolicamente. A violência simbólica também é danosa. Certamente o ato de pornoterrorismo na marcha das vadias do Rio de Janeiro foi um ataque moral à Igreja Católica. No entanto, essa violência explícita e encenada é meramente performática. É a veiculação da representação da violência. Sendo uma representação da violência, trata-se já de uma violência passível de significação compartilhável. É uma forma de violência mais branda do que aquela cotidiana e invisível que ataca real e concretamente sobretudo mulheres pela igreja e por meio de valores cristãos e católicos. A pedofilia sintomática na estrutura da igreja, a culpabilização massiva das mulheres em suas práticas anticonceptivas e para a interrupção da gestação, o apoio econômico às armas de guerras reais são também alguns exemplos que poderíamos evocar para discutir e denunciar a violência.

Podemos também nos perguntar qual lugar social e moral a Igreja Católica tem reservado para vadias, gays, putas, travestis, transexuais. Que lugar tem sido o da mulher nessa estrutura patriarcal e moral? Que lugar para as expressões de fé de matriz africanas? O respeito aos católicos é indiscutível, mas também temos que lembrar que católicos devem suportar viver em um mundo de ateus, de outros deuses e deusas e conviverão com pessoas que vociferam a violência que o catolicismo e o cristianismo possam lhes ter infligido.

A Igreja Católica já queimou, torturou, exterminou, seguidamente e por muitos séculos, muitas pessoas as quais atribuiu o estigma do menos humano, da heresia e da desumanização pela demonização. Talvez seja possível reconhecer a força de um atentado moral performático que simboliza e representa a relação entre catolicismo, sexualidade e violência. Não estamos em época de disseminar a ideia de que tais pessoas, por mais moralmente ininteligíveis que sejam para cristãos e para a moralidade hegemônica, sejam em si a besta. Não é prudente também reduzi-las ao lugar do pecador ou do criminoso. É necessário entender que há pessoas hoje que atuam radicalmente para fazer vir a público e ao universo de significação comum aquilo que vem sendo reiteradamente suprimido, foracluído do processo de reparação simbólica dos abusos de nossa história civilizatória.